COVID-19 – Situação em D1 após a medida de Confinamento

Se há um fato sobre esta epidemia, é que não faltam comentários, análises e dados sobre o assunto.

Eu, longe de ser um jornalista ou ter acesso a qualquer informação especial ou única, vou me informando e tomando ciência do assunto de acordo com as minhas fontes de preferência, tomando os cuidados necessários para verificar os canais oficiais e os centros de pesquisa de referência do assunto.

O que eu posso fazer para adicionar ao debate é simplesmente fazer o meu relato pessoal, e é principalmente sobre isto que é este post.

O mundo hoje está numa situação bastante que para mim é inédita, e apesar de eu ter relutado achei necessário pelo menos dizer como está a minha experiência nesse momento de #confinamento. 

Uma segunda proposta deste post é também deixar um ponto de contato para quem está vindo para cá por intercâmbio, trabalho ou por outra razão, para que possas acompanhar o que tem acontecido pelo ponto de vista de pessoas que estão no país.

O post está dividido em dois grandes temas : um mínimo de contexto, e na sequência uma parte de relato pessoal de como estou vivendo isso.

Por isso, se você também quiser trazer o seu relato, ou então se achar algum relato que mereça ser compartilhado, deixe nos comentários. Isso ajuda a criar um diálogo e aumentar o alcance dessa mensagem.

Disclaimer : nada neste post  deve ser tomado como fonte de informação oficial. Para informações atualizadas e oficiais, busque sempre os canais pertinentes. 
No caso da França, use por exemplo os portais https://www.gouvernement.fr/info-coronavirus ou https://www.santepubliquefrance.fr/. 
Para o Brasil, o portal do SUS é um ponto central para ter informações oficiais e atualizadas.
Disclaimer 2 : atenção, neste post há vários links em francês e em inglês, sem tradução.

O marco zero do confinamento

Apesar de já haver rumores de que haveria a mesma medida que foi tomada na Itália desde o final de semana, o momento em que ficou oficializado o confinamento foi no discurso do presidente da França, 16 de março de 2020 às 20h em horário local (Paris).

Nesse discurso, as medidas são anunciadas pouco a pouco, entremeadas de uma oratória cheia de repetição e ênfase no ponto de que se trata de uma “guerra sanitária”.

O tom do presidente é bastante preocupante, e ele equipara o tempo todo essa crise com uma guerra entre países. Mesmo fazendo essa ligação, ele lembra aos franceses que essa é a primeira vez na história em que existe um confinamento durante um período de paz.

Para mim foi bem tocante ele trazer esse ponto, pois foi uma das minhas preocupações nos dias antecedentes. Quando começaram a falar em confinamento, me parecia no início quase uma situação pós-apocalíptica na minha cabeça. Mas ao ouvir esse link, ficou muito claro para mim que na verdade esse tipo de medida é algo que a população francesa já viveu, e que deve ser inclusive debatido em aulas de história e geopolítica aqui.

Para quem não esteja informado, o confinamento deve durar pelo menos 15 dias, sendo que só é permitido sair de casa quem tiver uma situação justificada entre as 5 a seguir :

  • Trajetos de casa ao trabalho quando o home office é impossível (e a atividade é considerada indispensável)
  • Compras de primeira necessidade, sendo que existe uma lista de estabelecimentos liberados a funcionar
  • Ir até o médico/hospital
  • Deslocamento para cuidar dos filhos ou para ajudar pessoas vulneráveis
  • Exercício físico individual, sendo próximo ao domicílio e sem juntar pessoas.

Ainda quando se está nessas situações, é necessário uma atestação, impressa ou redigida a próprio punho.

As informações acima vem deste link oficial.

Porquê faz sentido?

Apesar de eu ter uma formação um pouco científica, não me sinto preparado para falar com precisão do assunto, então preferi trazer alguns pontos externos para alimentar o debate.

Um primeiro material Outro material que achei interessante é este vídeo aqui da Casa do Saber, onde é explicado um pouco do objetivo por trás da medida de afastamento e isolamento social. Em inglês eles lançaram uma hashtag #flattenthecurve para falar disso.

Na newsletter mensual e no podcast AffordAnything, eu vi algumas informações que gostei bastante e que fazem sentido. Entre outros pontos, o crescimento exponencial e a importância e o impacto do isolamento social. O artigo sobre o paciente 31 na Coréia do Sulé preocupante e ele sozinho é razão o suficiente para ficarmos em casa.

Nessa newletter ela coloca esse link do Washington Post e esse aqui do Medium que é um dossier muito completo e que achei muito bons.

Já vi muitas pessoas nas redes sociais também explicando, mas o ponto todo é : mesmo se você não faz parte da população de risco, você pode ser vetor da doença e contaminar grupos que crescem exponencialmente. Ficar em casa permitia limitar a contaminação  e dar um pouco de margem de trabalho para os hospitais poderem cuidar de quem realmente precisa.

Com isso finalizo a primeira parte do post. Mantenham-se informados nos canais oficiais para ir acompanhando o assunto. Os links estão lá no topo do post.

Acho que com essa introdução já dá para começar a falar dessa segunda parte do post, com o que eu estou fazendo efetivamente para me preparar e viver isso de um modo saudável e minimizar as dificuldades e o drama.

Eu acumulei dicas de vários lugares e estou tentando me cuidar um máximo.

Cabe notar que este é o meu relato do primeiro dia, então é muito mais sobre preparação e planos do que sobre realmente como será a minha situação ao longo da quarentena…

Estocagem de Alimentos

Foi uma das primeiras coisas que todos comentaram por aqui, junto com as escolhas de voltar para as famílias em outras cidades ou ficar onde estavam. Como eu  não tenho família aqui, e não tenho razão de sair de onde estou para onde cidade, não me apeguei muito ao segundo ponto.

Já sobre a estocagem de alimentos eu tive no começo uma leve preocupação :

Eu, brasileiro, com menos de 30 anos, nunca vivi nem sequer um período de alta inflação, nunca nem pensaria em criar estoque de alimentos em casa. Afinal, hoje em dia temos acesso a tudo, é fácil conseguir o que precisarmos mesmo que o de casa acabe afinal o “deus mercado proverá”

Maaaas, pelas contas de alguns colegas de trabalho, se passasse de um mês ou dois, poderíamos começar a ter problemas se, por exemplo, as indústrias alimentares não estivessem funcionando. Ou então se a logística de alguns setores ficasse enfraquecida por muito tempo.

Isso no entanto pareceu algo óbvio, algo bobo, que estava na cara, para todos os meus colegas de trabalho que logo quando as escolas fecharam já começaram a falar que iam passar no mercado fazer um estoque de algumas coisas…

Entre os itens que desapareceram completamente dos mercados, dava pra ver :

  • Arroz
  • Macarrão e outros tipos de massa
  • Farinha
  • Papel higiênico

Apesar de fazer algum estoque fazer sentido, é preciso tomar cuidado com o efeito manada e com a desinformação. Este artigo da BBC faz um panorama destes efeitos de mercado, e este aqui, do R7, traz uma calculadora da quantidade de papel higiênico necessária para uma quarentena.

Eu pessoalmente fiz simplesmente uma compra um pouco maior do que faria normalmente – eu sempre compro apenas para a semana seguinte. Dessa vez eu comprei tudo o que preciso para 15 dias e pronto. Por enquanto, não temos evidência para supor uma quarentena prolongada a meses sem reabastecimento nenhum.

Mas cabe também indicar que por eu ter ido já na segunda-feira antes do anúncio do presidente, o supermercado estava lotadíssimo e não havia mais arroz  nem macarrão. Por sorte eu tenho algum em casa.

Tomar conta de si mesmo (e de quem morar com você)

Sabe o famoso autocuidado ou self-care que está super em alta em vários círculos ? Então, no começo as pessoas pensam direto em todo o tempo que terão para cuidar da unha, do cabelo, daquele jogo esquecido na estante, daquele último projeto que nunca têm tempo para fazer.

Apesar de isso ser interessante quando pensamos na idéia de passar muito tempo em casa, é um meio bem rápido de esquecer várias coisas que são menos legais mas que permitem manter uma vida saudável e equilibrada de verdade.

Em resumo, autocuidado de instagram é legal por 3 horas, não por 15 dias. Pessoalmente, eu tenho algumas rotinas do que seria chamado “boring self-care” ou autocuidado chato, e listei, antes disso tudo começar, algumas coisas que eu preciso de todo jeito manter para ter uma vida saudável e manter a sanidade no dia-a-dia. Alguns exemplos são :

  • manter uma rotina diária
  • manter contato com os outros, com a natureza e comigo mesmo
  • fazer exercício físico em casa
  • manter uma alimentação equilibrada e saudável

Vou entrar um pouco mais em detalhe nos dois primeiros pontos pois acho que são essenciais.

Quando li relatos como o Diário de Anne Frank, para mim ficou claro como estes dois componentes de rotina e contato contribuíam de modo essencial para a sanidade de cada um e do grupo.

Mas antes disso, alguns comentários gerais :

Claro que eu fiz uma lista das coisas que eu vou “finalmente poder fazer porque terei tempo!”. Mas isso só se eu estiver em dia com os pontos acima e com as minhas outras rotinas normais.

Algumas coisas que eu vi com relação aos pontos acima me deixaram bem preocupado com o que isso vai impactar na vida das pessoas e na minha. Por exemplo, no mercado eu vi VAAARIOS carrinhos lotados de cerveja, vinho, batatas chips e chocolate. Eu não sei se as pessoas entenderam que isso não são férias, e que apesar de não devermos parar nossas vidas, também não devemos nos permitir colocar o pé na jaca como se fosse o fim do mundo. Eu seria hipócrita de dizer que não comprei chocolate, mas não exagerei como se fosse o último dia de chocolate da face da terra. Eu comprei pra 15 dias e pronto.

Quanto ao exercício, eu acho que vai ser mais fácil para os franceses do que para mim. Apesar de já estarmos entrando na primavera, a temperatura ainda não está ideal (hoje estava 14 graus aqui). O que para mim quer dizer que não consigo correr na rua. Para equilibrar, estabeleci um calendário semanal de Yoga e exercícios de força – eu nunca tinha conseguido manter uma rotina disso, então baixei o app da Nike para testar.

Contato

Quanto ao ponto do contato, eu separei em três itens : com outras pessoas, com a natureza e comigo mesmo.

Eu já vi muita gente falanmdo do contato com família e amigos. Eu sinto que com para quem é brasileiro, não preciso especificar os benefícios e a necessidade, é algo que a maioria acaba fazendo instintivamente pela proximidade que temos no dia a dia.Eu decidi não vou entrar nesse ponto neste texto.

Quanto ao contato com a natureza, é simples e rápido explicar o que eu quero com esse ponto : manter um mínimo de olhar para o que se passa fora, com as plantas, animais, o clima, o mundo exterior.

Mais uma vez citando Anne Frank, uma das coisas que mais me angustiava ao ler o livro era eles não poderem saber o que se passava fora e não poderem interagir com o mundo externo.

Mas por enquanto, na minha rotina estou pensando em coisas rápidas como passar 5-10 minutos fora de casa, observar o pôr-do-sol, ver um pouco as plantas e os pássaros que passam fora de casa.

Aqui, acho que o mais importante para mim é ressaltar o contato comigo mesmo.

Afinal, é quando eu não estou atento a como estou e como me sinto que é mais fácil permitir que a histeria, o drama, a dificuldade e toda a incerteza tomar conta da ações e acabar agindo de modos que não são úteis ou favoráveis a mim mesmo.

Eu decidi manter firme e forte a minha prática diária de meditação e de anotações no Bullet Journal, que sempre me ajuda a manter a cabeça no lugar. Parar para perceber o que estou carregando no corpo e na mente ajuda muito a saber quando precisamos de ajuda.

Entre outras coisas que andei lendo, eu achei incrível a iniciativa da Clotilde Dusoulier do changemavie.fr em compartilhar um vídeo tão  sereno sobre modos de lidar com as incertezas e as situações que vão surgir nos próximos dias (em francês) :

Eu ouvi antes de dormir após minha meditação e ajudou super a tirar um pouco de estresse que ainda estava lá.

Para quem fala (e sobretudo escuta) bem francês, ela também preparou uma playlist spotify incrível com dicas para lidar com essa situação (e várias outras!)

Manter uma rotina

Vale lembrar mais uma vez : isso não são férias.

E por isso que sim, é importante manter uma rotina. Isso permite não apenas a gente a ter uma base de certeza num momento tão incerto, mas também a conseguir “estar no clima” para fazer tudo o que temos de fazer.

Quando saímos da rotina, o corpo e o cérebro percebem, e começam a nos mandar sinais e agir de modos não esperados. Para quem já leu o Poder do Hábito as implicações são óbvias, mas para quem não leu, em resumo o cérebro adora pegar atalhos e seguir as programações que já conhece. E quando não consegue deixa a gente com umas reações que podem ser pouco úteis.

Tendo em vista tudo isso, meus objetivos principais ao definir uma rotina específica para este período são :

  • marcar a passagem do tempo
  • manter o ritmo de vida
  • garantir separação de espaços

Dito isto, alguns aspectos mais “táticos” sobre minha rotina :

Entre as coisas que mantenho na rotina, o Miracle Morning é algo que permanece des que comecei a fazer em 2017. É uma prática que me ajuda a começar o dia com energia e foco. Para quem quer começar agora, na newsletter do Hal Elrod saiu um post do facebook sobre como usar a prática para manter o equilíbrio nesse momento.

Como estou trabalhando de casa, estou usando e abusando de todas as dicas disponíveis em vários lugares para ter uma rotina / espaço físico / espaço mental separado entre trabalho e moradia. Sem dúvida o melhor no assunto é o guia do Trello, e eu também gostei muito deste post do blog do YNAB.

Seguindo dicas do YNAB, eu decidi continuar trabalhando de roupa social, pois eu sei que me ajuda a saber que estou no “modo trabalho”. Só de colocar calça social e camisa eu já sei que tenho que estar com um tipo de energia e foco, então prefiro usar isso em meu benefício.

Outro ponto essencial da rotina minha rotina é ter horários de início e fim, além de saber quando existem pausas. No trabalho eu tenho uma série de alarmes, e meu tempo já é estruturado de acordo com a minha capacidade de foco ao longo do dia (se quiser fazer igual, veja este post do Trello ou então este podcast do AffordAnything e este outro podcast também do AffordAnything).

E daqui em diante…

Não sei. Sinceramente, não sei o que esperar no final dos 15 dias, se vou conseguir manter tudo o que coloquei aí em cima, se vou acabar ficando louco ou se vou simplesmente estar com as séries e livros em dia.

Esse momento vai com certeza mudar algumas coisas na vida de todos nós – não apenas no ponto de vista dos cuidados da saúde e de si mesmo, mas de modos que hoje ainda não conseguimos imaginar.

Enquanto não podemos analizar a situação com a lente do futuro, decidi fazer tudo o que eu posso fazer com a informação que eu tenho, e decidi também compartilhar com vocês como estou lidando com isso.

Se você também quiser compartilhar a sua história aqui no blog, ou então se tiver algum relato que ache que valha a pena deixar aqui, deixe nos comentários.

Um comentário em “COVID-19 – Situação em D1 após a medida de Confinamento

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