Vida de Expatriado – O que aprendi em 2 anos (Parte 2)

Fala galera!

Hoje vamos continuar o post sobre as coisas que eu aprendi, ou descobri, ou percebi nos marco de dois anos vivendo na França.

Para quem perdeu, a lista da semana passada era mais sobre coisas legais, mais fáceis de absorver. Indico começar por ela pois essa aqui contém verdades mais difíceis.

Todo ciclo tem seus altos e baixos, e neste não podia ser diferente. Apesar de morar fora do Brasil ter me trazido muito aprendizado e muita coisa positiva, nem tudo são flores.

Ultimamente três pontos que não são negativos mas que são realidades difíceis ficaram muito mais patentes na minha vida, e resolvi compartilhar com vocês um pouco disso.

Se alguma dessas coisas também te marcou, deixa um comentário ou conta pra mim lá na última foto do Instagram ou no Twitter!!

Vamos lá?

Não poder estar presente em momentos chave para a família

Todo o ponto de ter um período fechado para estar fora do país é que você consegue projetar um pouco a situação de saúde familiar. Claro que surpresas podem acontecer – positivas ou negativas – mas dá para imaginar com alguma margem de erro o que pode acontecer nos próximos 1, 2, ou até 3 anos em termos de evolução familiar.

No entanto, ao partir para o mundo do indefinido, tudo parece um grande borrão. Claro que tem uma série de eventos que você já consegue imaginar na mesma ordem de grandeza que dava com o período fixo, mas tomar decisões e imaginar a vida quando me perguntam de aposentadoria, ou quando tiver filhos, ou daqui dez anos é um exercício que não me traz nenhum prazer.

 

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E é no entanto um exercício importante, para garantir que sua escolha está valendo a pena. A resposta pode mudar completamente suas ações e seu rumo de vida, então é importante se perguntar com frequência.

Por exemplo, nos últimos dois anos eu já tive a infelicidade de estar fisicamente distante em momentos muitos difíceis para minha família próxima.

Viver esse período, tentar ajudar e dar apoio, ou simplesmente mensurar as dificuldades e o sentimentos de quem está a 9 mil quilômetros é uma tarefa hercúlea

Tarefa que eu não julgo ter completamente completado e que eu espero ter mais tato e discernimento quando a situação se apresentar.

Estar sempre consciente da diferença de cultura

Eu entendo um mínimo as limitações de uma cultura eurocêntrica como a que vivemos no Brasil, e não acho de modo algum que a negação de outras fontes seja válida ou um ponto positivo. É inegável no entanto que ter sido criado nesse meio me ajuda a entender alguns comportamentos e vieses que se apresentam o tempo todo.

Mas não é por isso que eu sinto uma integração cultural completa e aceito todos os costumes como fundamentais.

No dia a dia, eu não sei até onde as pessoas com quem eu convivo percebem, mas por ter vivências em um referencial social e geográfico muito diferente dos locais, existe um senso não só de questionamento da realidade, mas também de um certo afastamento que acontece por exemplo, com os costumes.

Por alguma razão, eu me sinto muitas vezes desconectado não só dos costumes daqui, mas também do que fazemos no Brasil. Muitas vezes eu me sinto completamente alheio aos dois e me pergunto o que é realmente parte de mim ou não.

É um sentimento difícil de explicar, é um choque entre a identidade individual real e a identidade individual criada por meio dos padrões coletivos que seguimos ao longo do tempo, mas que de repente não fazem mais necessariamente sentido. Algo do tipo “isso sempre foi meu, mas será que ainda precisa ser? E será que era realmente meu?”

Às vezes parece um pouco como naquela música da Pitty Só de Passagem, e a gente se sente separar um pouco de tudo isso.

Mas passa rapidinho e 10 minutos depois estamos novamente presos na vida cotidiana, mas com mais auto-consciência.

Perceber a desigualdade social e os preconceitos contra imigrantes

Quando durante as férias na faculdade eu voltava para a cidade dos meus pais, sempre me chocava ao ver pessoas de todas as idades na rua – famílias com crianças, idosos, adolescentes. Isso porque a faculdade ficava num distrito onde basicamente todas as pessoas que você via na rua eram ou universitários ou professores.

 

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No intercâmbio não era muito diferente, a esfera de convívio é muito limitada pelo ambiente de ensino. Se não buscarmos referências e vivências externas ativamente, é fácil acreditar que o que vivenciamos é um reflexo do país, e nos enganarmos completamente.

Por exemplo :

Hoje eu sei que o tipo de instituição em que eu estudei tem a maior taxa de hereditariedade da frança (ou seja, a chance de estudar numa Grande Ecole é muito maior se você tiver o pai ou a mãe que estudou nela) - algo em torno de 30%.

Eu também sei que apesar de os custos não serem exorbitantes, para passar nos concursos os alunos passaram 2 anos de escola preparatória, esta podendo ser bem cara, e que os pais bancavam, na maior parte dos casos, para os filhos morarem em outra cidade sem trabalhar.

Não dá para imaginar que essa imagem é a imagem do francês médio. Trocando em míudos : assim como numa universidade pública brasileira, a população nessa instituição é o recorte sobre recorte sobre recorte. Recortes esses que não são sempre explícitos, mesmo entre quem está na situação e conhece os aspectos sociológicos envolvidos.

Uma das percepções que eu tinha e que estava totalmente errada é que havia uma aceitação da população imigrante, justamente por eu estar num ambiente onde havia um bom acolhimento.

Ao passar para um contexto mais amplo o choque é grande. Apesar das muitas políticas do país para junto a estas populações, o preconceito é muito grande, e não é incomum ver comentários injustos e zero empáticos.

Eu raramente sou visto socialmente como “imigrante”, mas isso não me impede de observar comentários, opiniões e ações que desconsideram totalmente a vivência de seres humanos que muitas vezes viveram situações terríveis em seu país.

É ultrajante ver como muitas pessoas associam refugiados a algo ruim para a França, sem sequer imaginar as dificuldades e o que podia ser a vida daquela pessoa para ela chegar ao ponto de abandonar completamente seu país sem nenhuma expectativa ou certeza do que será seu ponto de chegada. Falta empatia demais em algumas pessoas (esse ponto vale para qualquer lugar, no Brasil também está cheio de gente zero empática).

E aí, o que acharam? Junto com a primeira lista essa aqui completa a minha reflexão de dois anos na França, e um pouco menos de um ano e meio do blog. Espero ainda compartilhar muita coisa legal e dividir aprendizado sobre a vida e a cultura da França.

Até outra hora aqui no blog, ou então nos comentários do Instagram ou do Twitter!

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