Vida de Expatriado – O que aprendi em 2 anos na França

Fala galera!

Semana passada eu passei o marco de 2 anos vivendo na França. Após algum tempo em off cuidando de outros projetos, decidi parar tudo para e registrar esse momento.

Acabou ficando longo demais, então eu decidi dividir em 2 posts para deixar mais leve.

Não sei dizer desde quando, mas já tem muito tempo que eu sou uma dessas pessoas que não gosta de aniversário.

Eu acho um pouco arbitrário e não gosto de ter tanta atenção sem ter feito nada de especial. Por outro lado, esse marco é referente a uma decisão que eu fiz e que continuo fazendo a cada dia.

Quando eu disse para uma amiga que estava vindo para a França e que o vôo caia exatamente no mesmo dia de quando eu vim pela primeira vez para estudar, ela me disse que era o chamado de um novo ciclo (oiii Larissa!) . Até hoje não sei exatamente o que ela quis dizer com isso, mas a frase me marcou muito, e de vez em quando penso nisso. O fato de ter sido transferido próximo a esse período me lembrou muito forte dela.

Agora nesse verão eu começo um outro ciclo, 7 anos depois, na mesma cidade onde fiz o intercâmbio. Entre as reflexões que tive recentemente, eu pensei em algumas diferenças entre como eu me sentia e vivia a vida na França entre o intercâmbio e hoje.

Nessa primeira parte da lista resolvi começar com as coisas não necessariamente positivas, mas aquelas que são mais fáceis de aceitar internamente. Se alguma dessas coisas também te marcou, deixa um comentário ou conta pra mim lá no Twitter!

Vamos lá?

Entender o que dizem en Rap Francês

Eu falei disso essa semana com a Thaís, que também escreve aqui pro blog. Ela foi num festival e disse que entendeu as letras. E eu parei para pensar e durante o acampamento deste ano os jovens colocaram um monte de rap para tocar, e eu percebi que também entendia o que diziam – e em geral ficava bem chocado com o que contavam no caso. Mas o ponto chave é que rap não é nada fácil de entender e eu fiquei bem feliz com essa conquista linguística.

Claro que não é só em termos musicais que eu percebo mais fluência, mas em todas as esferas de vida.

Apesar de cada novo círculo ainda ter um assunto e as pessoas insistirem em comentar esse ponto – e eu não necessariamente ficar feliz com os comentários por serem reducionistas – é um fato que tem uma diferença gigante entre a primeira vez que eu cheguei aqui e hoje.

Eu ainda faço um esforço desmesurado para ter certeza que escrevi tudo como devia quando tenho algo importante a redigir, e muitas vezes erro o registro entre formal e informal. Mas hoje eu já não sofro com a velocidade da fala, ou o sotaque de alguém. Eu também já tenho bagagem o suficiente para poder discutir de quase qualquer assunto sem parecer um analfabeto, e é muito raro eu travar em alguma situação.

Exceto quando as pessoas falam de barcos. Da última vez eu fiquei perdidinho e não conseguia fazer nada além de repetir que “para mim tudo é barco : barco pequeno, barco grande, barco a vela”…

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Convenhamos que como eu não vejo lá muitos barcos e eles estão longe de fazer parte do meu dia a dia, então isso não é lá um problema.

Ter relações de amizade além do superficial

Isso não é algo que começou agora, ou que de repente eu percebi, mas por ter mais facilidade de comunicação e já ter uma vivência no país, hoje eu posso dizer que as relações que eu vivo aqui são mais profundas do que antes.

Ao conseguir ultrapassar a etapa do “como você chama e de onde você vem”, sobra espaço para discutir de temas mais profundos e desenvolver melhor os assuntos que criam uma verdadeira conexão.

O humor é outro ponto chave. Compreender o humor francês não é lá uma tarefa muito simples, e eu ainda passo por momentos onde eu não vejo graça nenhuma, mas até mesmo estas discussões se tornaram uma maneira muito rica para aprofundar as relações e mostrar vulnerabilidade.

Desenvolver mais minha “bússola interna” e aprender a respeitá-la

Quando eu vim para o intercâmbio, a palavra de ordem era “explorar o mundo”. Por ter uma data fixa – a princípio – um senso de urgência muito grande se instala, e toda experiência parece válida e quase necessária. Dizer não a um rolê parecia uma idéia completamente esdrúxula.

Anos depois, minha perspectiva apesar de não ser de “criar raízes”, é algo entre os dois. É de muito menos pressa, e eu já não faço mais questão de vivenciar tudo.

Tem um texto de Pierre Rabhi que diz :
“É preciso aceitar que não podemos viver tudo”

Eu ainda tenho muitos problemas com isso – e vou discutir nos pontos mais abaixo – mas eu fui pouco a pouco desenvolvendo minha bússola interna e hoje eu já consigo ver um pouco melhor o que está alinhado ou não com o norte que eu decidi para mim mesmo.

Algo que ajuda muito é ter isso claramente registrado e olhar frequentemente.

Eu tenho meus objetivos de vida no meu Trello pessoal e no meu bullet journal, e busco olhar todos os dias para eles. Eu abandonei um pouco a prática no começo do ano e percebi que após um tempo eu sentia como se tivesse completamente esquecido tudo aquilo.

Eu me senti péssimo, e tomei um tempo para sentar e botar no papel o que era importante e porque eu sentia que não estava dando atenção o suficiente para isso.

Esse exercício me fez lembrar o quanto é necessário pensar um tempo no que queremos realmente nos mantermos alinhados.

Outro ponto positivo de ter tudo registrado é que é fácil usar isso como régua para avaliar as nossas escolhas pessoais.

Aprender a manter melhor relações familiares a distância

Durante o intercâmbio, em vários momentos eu deixei a peteca cair e fiquei sem comunicar corretamente com minha família e amigos por muito tempo. Ao decidir vir para a França sem data para voltar, um dos meus objetivos pessoais era ter mais qualidade nas relações, e não deixar de manter contato.

No intercâmbio, eu já estava preocupado com isso, então eu decidi escrever um blog e enviar cartões postais.

O blog me trazia paz de espírito por eu estar “compartilhando minha vida com todo mundo!”. A idéia em si não é ruim, mas ao voltar ao Brasil após o intercâmbio percebi o quanto foi na verdade muito mais uma liberação para mim do que uma real comunicação.

Era algo tão passivo e fácil que eu nem sequer percebia o quão vazio de sentido isso se tornou por eu não estar indo até as pessoas.

Já os cartões postais por serem algo individual, e com uma intenção muito mais direta e ativa, sempre faziam as pessoas comentarem e virem falar ou comigo ou ao menos com meus pais. Várias pessoas muito queridas guardam com muito carinho os postais que eu envio, e me deixa muito feliz saber que elas ficam tão marcadas quanto eu pelo gesto.

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Sete anos depois, eu continuo escrevendo um blog e mandando postais. Estranho né? Mas o foco mudou totalmente.

Hoje o blog não tem nenhuma intenção de manter minha família e amigos informados da minha vida, mas de divulgar cultura e aspectos da administração na França. Os postais continuam sendo um modo de enviar muito carinho para amigos e família, então não conto parar tão cedo.

Além disso, algo que aprendi com os franceses e, na minha opinião, melhorei, é a arte de mandar cartões de natal. É super clichê, e a foto de família ao lado do pinheiro de Natal é quase uma piada pronta, mas adaptando do meu jeito eu transformei num jeito de compartilhar minha vida com pessoas que falo menos, dar notícias e, com alguma sorte, inspirar um ou outro a fazer algo parecido.

Ao voltar ao Brasil ano passado uma amiga decidiu ser minha parceira de responsabilidade e estamos com metas de leitura mútuas esse ano. (beijo Flá!)

Eu também tenho um projeto de aprendizado financeiro com a minha irmã que nos permitiu ter conversas super profundas desde o início do ano. Chega a ser engraçado o quanto aprendemos um sobre o outro apesar de termos vivido uma vida inteira na mesma casa.

 

E aí, o que acharam? Essa primeira lista consta os pontos, vamos dizer, “positivos”, e eu vou completar com uma lista de coisas que não são necessariamente negativas, mas que são menos fáceis de acolher no dia-a-dia e que necessitam mais trabalho emocional.

Espero vocês semana que vem, ou então nos comentários do Instagram ou do Twitter!

 

(O porquê dessa música no próximo post!)

Até outra hora aqui no blog, ou então nos comentários

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