Férias no Brasil – As perguntas que me fazem…

Fala galera!

Eu já comecei a escrever sobre a experiência de voltar ao Brasil para as férias no post anterior, onde abordei algumas reflexões que foram importantes para mim ultimamente.

Desde que eu vim trabalhar na França, já foram quase 18 meses (!!!). Como voltei ao Brasil no Natal, eu aproveitei ao máximo as 3 semanas em que estive lá.

Durante esse tempo, eu acabei visitando vários grupos próximos – tanto amigos como familiares e membros da “família extendida” (um conceito que conheci no trabalho de Clarissa Pinkola Estés que faz muito sentido na minha vida).

Apesar de cada grupo ter um grau de proximidade diferente e, muitas vezes, um foco de interesses diferente, algumas perguntas se repetem com bastante frequência.

Entre as perguntas que me fizeram, algumas me chamaram a atenção por serem recorrentes e comuns a quase todos os grupos:

  • É muito frio?
  • A vida lá é diferente, né?
  • E você não sente falta do Brasil?
  • Você não volta mais, né?

E o tema deste post vai ser abordar estas questões, com o recuo de já ter respondido várias vezes e pensado com bastante carinho em cada uma para entender qual a resposta que me parece mais sincera e coerente.

Não é um post que terá lá muita aplicação prática direta, mas eu acho que talvez possa ajudar outras pessoas que se fazem as mesmas perguntas mas não tem a quem perguntar.

É muito frio?

A resposta às duas primeiras é rápida: sim, em comparação ao Brasil é bastante frio, especialmente nessa época do ano (este texto foi escrito em Dezembro de 2018 ). Com a viagem, por ter chegado numa semana muito quente no Brasil, foram cerca de 40 graus de diferença (na quinta antes de eu sair fez -2ºC em Angers e no Brasil estava em torno de 34-35 ºC durante o dia).

Um ponto bem engraçado foi que, por estar com muita expectativa mesmo para sentir calor, não sofri nem um pouco no começo, muito pelo contrário. Logo que eu cheguei eu fui correr no sol, para aproveitar do calor e do mormaço.

Eu até ria, falando que

“Acho que não me adaptei ainda pois não estou achando ruim ainda!”

Durou um tempo, mas como eu viajei mais para o interior visitar minha família acabei pegando um calor bem úmido e ficando até com um pouco de dor de cabeça alguns dias.

É até engraçado ver a quantidade de ventiladores que as pessoas tem em casa, é um contraste muito grande com o que o corpo acaba até acostumando.

Edit:

Para quem gosta de dados que nem eu, algo que esclarece bem é olhar as curvas de temperaturas médias e amplitude térmica ao longo do ano nos dois países. Nada como colocar dados no lugar de só achismos.

O site climate-data.org fornece curvas para várias cidades e eu peguei nele as curvas de São Paulo e Paris para comparar.

 

A vida lá é diferente, né?

Já a vida lá, não, não é muito diferente dependendo do que as pessoas querem saber quando perguntam.

As pessoas parecem projetar uma vida completamente diferente onde você só viaja todo fim de semana e faz o tempo todo coisas incríveis.

Isso não é nem um pouco verdade para mim.

Tendo vivido sempre no interior de São Paulo numa família branca de classe média-alta, o dia-a-dia acaba sendo bem parecido – rotina de trabalho, academia, sair de vez em quando…

Claro, eu não tenho família próxima, não posso falar em português no trabalho, de vez em quando tenho alguma dificuldade administrativa que não teria no Brasil por ser nativo, mas isso não está nos 80% do cotidiano. Nem isso nem as possibilidades de viagem que tanto acreditamos que poderemos ter toda hora se morarmos na Europa.

Isso não está nos 80% do cotidiano.

É muito engraçado imaginar que as pessoas que conheço e frequento – todos vivendo uma realidade super distante do Brasil “médio” – imaginam que um país de primeiro mundo não tem “nada a ver com isso aqui”, sendo que vivem em meios privilegiados e têm acesso a uma realidade que é muito próxima disso. (Não vou discutir a validade ou não do IDH como indicador da qualidade de vida da população como um todo, mas acho cabível citar que no artigo da Wikipédia sobre IDH-M de São Paulo temos muito mais cidades nos rankings Muito Alto e Alto, o que é um dado bastante revelador sobre o nível de vida, sobretudo das classes média e média-alta)

Até onde eu vejo, a grande diferença é no acesso e uso de serviços públicos, sobretudo aqueles que no Brasil são sucateados: transporte, saúde, acesso à educação… E que, apesar de funcionarem muitas vezes melhor que no Brasil, também não são ideais – eu esperei mais de 4 meses por uma consulta cardiológica de 15 minutos, as mães tem que inscrever os filhos na creche desde que nascem para ter uma vaga em muitas cidades, entre outros exemplos que a gente diria que é digno do Brasil.

E em muitos casos esses serviços também não são 100% realidade para todos os franceses, sobretudo o transporte público que tem pouca penetração nas cidades do interior do país e a saúde, sendo que o país tem várias zonas chamadas de “desertos médicos”.

Por essa e outras razões, as reclamações que as pessoas fazem no dia a dia acabam sendo bem parecidas – política, trânsito, precarização do trabalho assalariado…

Então minha resposta costuma ser

o dia a dia é bem parecido

e eu dou exemplos comparando meu estilo de vida com o que as pessoas levam. Muitas das coisas que eu vivo muito diferentes do que quem me pergunta em geral eu já vivia no Brasil mesmo morando em SP…

Não sei até onde isso é só um sentimento meu, mas eu sempre acho que muitas dessas coisas são escolhas que as pessoas acabam se prendendo sem perceber. É incrível como sempre tem um “ah mas é que você XXXX” no lugar de aceitar, por exemplo que:

  • Morar longe do trabalho é uma escolha
  • Não cozinhar em casa, ou então não cozinhar coisas saudáveis é uma troca de tempo por saúde, seja isso uma escolha consciente ou não
  • É possível fazer trabalho voluntário, exercício e desenvolver interesses pessoais no tempo livre sim, em qualquer lugar e com qualquer profissão
  • Ninguém vem até minha casa desligar o Netflix e me dar livros na mão para eu ler, sou eu mesmo que desligo o computador e pego os livros

O que você vai deixar de fazer para poder fazer isso e como você vai se organizar também são escolhas suas, mas a partir de um certo nível social e de renda, cada um escolhe os problemas que prefere ter.

Várias destas coisas eram uma realidade para mim, morando em São Paulo, então não vejo porquê as pessoas insistem em idealizar a vida no exterior. Um primo meu diz para todos da família:

“A vida é ótima em qualquer cidade quando você mora num bairro rico e tem dinheiro”

Cabe lembrar que eu estou num meio super privilegiado onde a maior parte das pessoas realmente poderiam escolher um estilo de vida diferente. Diferente do que elas levam, diferente do que eu levo, e diferente de tudo o que imaginam ser possível…

 

E você não sente falta do Brasil?

Quanto a sentir falta do Brasil, pelo grau de privilégio que eu tenho, não digo que tenho falta do país, mas sim das pessoas (e de algumas comidas, mas isso é assunto para um outro post).

Pelos ponto que eu já levantei acima, não sinto tanta diferença no dia-a-dia. Uma vez constituído um grupo próximo – o que eu tenho por conta da minha participação da vida local e por ter conhecido alguns brasileiros bem incríveis – a necessidade de conexão é em parte suprida, e a saudade parece se aquietar um pouco.

Claro que a proximidade, sobretudo física das relações que eu tenho com meus círculos brasileiros é bastante diferente do que eu tenho na França.

Em um churrasco no Brasil acho que tive mais abraços de amigos que em 18 meses na França.

Mas não é por isso que eu deixo as pessoas dizerem por mim que essas relações são melhores. Elas são simplesmente diferentes e, apesar de uma distância física, a proximidade emocional e profundidade das relações não é tão diferente quanto gostamos acreditar para suprir nossas projeções pessoais.

Eu gosto de resumir as relações de amizade com franceses do seguinte modo:

Um francês vai demorar bem mais para se tornar seu amigo que um brasileiro, mas uma vez que isso acontecer ele será seu amigo para sempre e fará o esforço de manter a relação viva.

Digo isso pois fora algumas poucas exceções, meus amigos brasileiros tem muitos problemas para manter contato quando existe uma distância física grande. Sempre que estamos juntos é ótimo, e parece que nos vimos ontem, mas muitos não fazem esforço algum para ter notícias ou manter a relação.

Por outro lado, tenho amigos franceses – amigos de verdade, de fazer projetos juntos e tudo o mais, com os quais troco e-mails, mensagens, e nos juntamos no skype de tempos em tempos para nos atualizar da vida de cada um.

Assim, eu costumo dizer com bastante segurança que não, não sinto falta do país, mas sim do meus círculos próximos. Esse tipo de sentimento sempre vai variar de acordo com cada um, mas, hoje, eu sinto bastante segurança nisso.

Você não volta mais, né?

Essa acho que é a pior pergunta para quem mudou recentemente de país. Por vezes ainda estamos nos adaptando, ou então ainda estamos em uma situação super instável com relação a vistos, permissão de trabalho e outras burocracias, e esse tipo de pergunta ataca esse ponto que muitas vezes é bastante sensível.

Eu, mesmo tendo hoje uma situação aproximadamente estável – com um trabalho fixo e pedido de um visto de 4 anos validado, possibilidade de pedir nacionalidade dentro de alguns anos, etc – não posso dizer categoricamente que ficarei no país indefinidamente.

Apesar de não ter prazo para voltar, isso também não quer dizer que eu tenha um plano ou a intenção de ficar no país para sempre. Ou que eu sequer sei o que eu vou querer daqui 1, 2, 5 ou 10 anos. Eu posso estar morando em Timbuktu até lá!

A falta de um plano para voltar não implica que haja um plano para ficar. Ou sequer que exista um plano.

Não sei se é assim com todo expatriado, mas apesar de eu sempre estar imaginando planos, todos eles são para mim mais como cenários, hipóteses e possibilidades, que vão ganhando mais ou menos peso conforme a realidade traz oportunidades de realizar algum deles.

Acho que no fim foi mais um desabafo que outra coisa, mas achei que está alinhado com o objetivo de falar um pouco da vida de expatriado. Se este post te ajudou, ou então se tem alguma outra pergunta que você quer ver respondida aqui no blog, não deixe de deixar um comentário ou mandar um oi no Twitter!

3 comentários em “Férias no Brasil – As perguntas que me fazem…

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