Vida de Expatriado – Como minha personalidade mudou ao mudar de país

Hoje eu decidi fazer mais um post falando mais sobre a experiência de viver numa outra cultura. Eu já falei algumas vezes no blog sobre choques de cultura que podem ser mais ou menos esperados, mas ainda não falo muito pouco sobre os choques de identidade que podemos ter.

Sim, pois estar em um novo ambiente nos força a nos entender mais, nos recriar, e, no processo, crises de identidade podem acontecer.

Eu falei nesse post aqui sobre as crises de auto-identidade e identidade externa, e hoje eu tive um pequeno momento de crise da minha auto-identidade comigo mesmo.

Após um almoço bem normal com meus colegas de trabalho eu me peguei me sentindo super cansado. Eu não tinha nenhuma razão para me sentir assim – tinha começado no horário de sempre, dormido minhas 8h, e estava tomando meu café como sempre.

Mais tarde eu me separei do grupo e fui fazer umas compras – eu precisava de fio dental em casa. Só o fato de me separar do grupo por alguns minutos já me permitiu me sentir melhor, eu estava claramente mais à vontade e o cansaço tinha sumido.

Quando notei a diferença me veio uma pequena epifania, em pleno corredor do mercado.

Foi meio que meu cérebro combinando dois conceitos que eu já conhecia mas que eu nunca tinha ligado. Eu percebi que apesar de, em português eu ter uma personalidade mais extrovertida, em francês eu tenho uma tendência a cair mais para o lado introvertido.

Não que eu não goste dos meus colegas de trabalho, ou de estar com franceses, mas essas interações muitas vezes me cansam.

Lendo a frase assim não parece nada incrível como epifania. E talvez nem seja. Mas eu me senti entender um pouco mais a mim mesmo e um pouco dos meus ritmos e emoções.

Só para deixar claro, os conceitos que eu reuni foram:

1 – quando você fala uma nova língua você pode até mesmo mudar de personalidade

2 – pessoas extrovertidas captam energia durante interações sociais, enquanto pessoas introvertidas gastam energia nessas mesmas interações

Eu sempre me vi muito mais do lado da definição de extroversão, mas já tem algum tempo que eu venho notado que quando passo longos períodos interagindo em francês fico muito cansado, um sinal claro do “gasto de energia” típico de quem é mais introvertido.

No começo do meu intercâmbio, quando comecei a viver na imersão da língua francesa, eu me sentia fisicamente muito cansado por conta do número e frequência de interações no idioma.

É um assunto que eu sempre gosto de discutir quando encontro brasileiros e outros estrangeiros que acabam de chegar no país, pois a gente às vezes chega ao ponto de acreditar que está ficando depressivo ou que tem algo errado com nosso corpo.

E tudo isso por um efeito 100% normal que é o cérebro ficar cansado pelo trabalho extra de traduzir tudo o tempo todo.

Até aí tudo bem, eu já sabia que isso acontecia.

Mas eu estava certo de que após alguns anos de vida no país e um grau de fluência maior eu me sentiria menos cansado e passaria a ter interações mais parecidas com as que tenho em minha língua materna.

Feliz ou infelizmente, isso não é exatamente o que acontece por hora.Hoje, apesar de eu me sentir 100% okay com qualquer interação e não ter nenhum problema real a maior parte do tempo, continuo me sentindo cansado após alguns tipos de interações sociais.

As frases “estou cansado de lidar com pessoas” ou “gente me cansa”, que me pareceriam uma loucura há alguns anos atrás, de vez em quando me definem, e a solução é parar tudo e tomar um tempo para mim, sozinho para colocar as idéias no lugar.

E eu ainda sou a mesma pessoa que morava em república e estudava na cozinha só para ver gente passando. Eu ainda adoro ser chefe escoteiro e organizar jogos e atividades com as crianças. Mas em francês essas interações aos poucos me cansam no lugar de me dar mais energia.

Eu ainda não sei o que vou fazer agora que percebi isso. Mas sei que entender e aceitar essa mudança vai me permitir desenvolver melhor essas interações e ser mais intencional nelas.

É engraçado ver que alguns aspectos altamente identitários podem ser completamente fragilizados de uma hora para a outra. Para mim, isso não é ruim! Perceber isso foi um leve choque nas minhas crenças, mas ao mesmo tempo vai me permitir compreender melhor e aceitar mais facilmente o fato de que sim, as mesmas interações sociais que na minha língua materna me carregavam as baterias me drenam para caramba na segunda língua.

Quando eu ouvia falar que a segunda língua podia trazer uma troca de personalidade, eu nunca poderia imaginar que essas mudanças seriam percebidas pelo próprio indivíduo de maneira tão patente, e que poderiam mudar áreas tão profundas quanto extroversão.

Eu raramente tive momentos em que a mudança de personalidade foi tão clara para mim. Eu sei que essas mudanças não mudam meus valores intrínsecos, mas ainda não decidi como vou recriar a minha identidade a partir disso. Ou então como vou adaptar a minha auto-percepção da minha identidade externa em torno disso.

Mas eu sei que me recriar e reentender estava “no contrato” quando decidi mudar de país. Que venham os próximos choques de cultura e identidade.

 

Referências (ou: o ponto fraco deste artigo)

Seria triste se não fosse triste, mas, como todas as premissas simples e fáceis demais, as que eu cito não são verdades nem 100% cobertas pela ciência. Cada uma delas representa apenas um ou poucos estudos sérios e conclusivos. Vamos falar sobre isso?

Primeiro, um artigo do Psychologytoday sobre mudança de personalidade (e como na verdade talvez seja apenas adaptação a um contexto). O quanto isso faz sentido real ou não continua aparentemente em aberto, mas meu sentimento de que há uma mudança ao menos nesse ponto da introversão – seja ela causada pelo contexto ou não, é real.

Lendo o artigo, sobretudo a história das duas irmãs trílingues fez bastante sentido. Mas o fato de que seu comportamento se adapta – o que pode ser considerado uma forma de mudança de personalidade se  considerarmos que a personalidade percebida por quem está de fora é um resultado desses comportamentos – não é contestado e como ele é possibilitado devido a existência de uma segunda língua, mantenho o ponto.

Obviamente a segunda premissa também não é correta e existem várias razões para discordar dela, como podemos ver aqui, mas ela é algo que eu também já ouvi por aí e foi um ótimo ponto de partida para começar a ler sobre o assunto e entender melhor os comportamentos e sentimentos percebidos como introversão e extroversão.

O artigo acima é bastante traz vários aspectos das nuances, causas e efeitos tanto sociais atuais como evolutivos da introversão e da extraversão. Achei uma fonte bem rica e com referências claras e diretas sobre o assunto. E além do mais tem 2 testes para quem quer saber se posicionar nessa escala.

 

Um comentário em “Vida de Expatriado – Como minha personalidade mudou ao mudar de país

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