Lembranças do meu Primeiro Inverno na França

 

Fala galera!

Depois que eu voltei para a França para trabalhar, um tema recorrente de conversas com brasileiros que acabam de chegar para estudar por aqui é sobre o inverno.

A primeira vez a pergunta me chocou um pouco mas, quando eu perguntei o que preocupava a pessoa eu percebi que faz todo o sentido e que eu também sofri bastante no meu primeiro ano.

Quem está no Brasil tem a impressão que o inverno é só glamour:

Nossa como o pessoal se veste bem

Ai quanta comida gostosa

Gente aí tem neve, pára de reclamar!

O que não deixa de ser uma verdade, repetida à exaustão nas redes sociais. Mas o que ninguém posta nas redes sociais é que ficou doente por uma semana, que aquela roupa toda pesa para caramba e que você fica sem vontade de sair de casa, que qualquer trajeto mais longo pode ser uma verdadeira epopéia e que a neve só é realmente legal nos primeiros dias.

Eu me lembro muito do meu primeiro inverno em Nantes – ainda era Outono, mas para um brasileiro de São Paulo parecia um super inverno, com uma garoa interminável e um frio constante.

Pode parecer até clichê – na região da Bretanha aqui na França é uma piada comum dizer que chove o tempo todo – mas no meu primeiro mês de novembro por aqui eu simplesmente não vi o sol.

Esse período, para quem vem estudar, também coincide com o fim da animação do começo do ano. Em julho e agosto tudo é festa, o dia dura até as 10h da noite e você pode sair bastante. Em setembro, voltam às aulas e você está animado com a nova vida, novos amigos, festinhas…

 

Daí vem outubro e além de começar a esfriar, as pessoas saem menos, e, após meses saindo todo fim de semana em algum rolê, você começa a passar uma parte maior do seu tempo em casa – para estudar, para trabalhar, ou até mesmo simplesmente porque as pessoas estão saindo menos mesmo. Vem, nesse momento, uma impressão de marasmo e tédio que a gente ainda não tinha se permitido sentir.

E isso não é só comigo!

Todo mundo acaba sofrendo com isso. Então se você estiver nessa situação e estiver ou preocupado, ou já se sentindo meio estranho, triste, para baixo, badzinha, não tem problema! É normal, e a adaptação não vai ser instantânea.

É importante não se deixar abater e procurar soluções para os sintomas até se sentir melhor. Tem um ditado em inglês que diz : “fake it until you make it” e ele se encaixa 100% nesse tema.

Hoje, eu me vejo, como alguém que sobrevive bem ao período de frio, não só por saber o que esperar, mas também por ter criado algumas táticas para não deixar a bad me vencer. Vou falar dos sintomas que eu pessoalmente sinto, e como eu tento lidar com cada um deles.

Nem tudo vai funcionar ou fazer sentido para todo mundo, mas eu acho que pelo menos alguma dessas coisas pode acabar ajudando a não ser tão sofrido esse primeiro momento de inverno.

Frio na rua, na chuva e na fazenda

Vamos começar com algo bem físico, real e para o qual temos números para comprar que é fato. A temperatura e o clima úmido são uma realidade na região em que eu moro e apesar de na época eu ter postergado ao máximo esse momento, eu deveria ter comprado um bom casaco antes.

Estudante e pão duro, eu queria esperar até os soldes para comprar o bendito manteau ou sobretudo ou como queira chamar. Foi um baita erro, eu passei frio por um tempão achando que estava sendo super inteligente.

Não que você deva comprar o primeiro que aparecer, nem comprar meses antes de o inverno começar (o que pode na real ser até uma boa idéia), mas não espere até os soldes em janeiro a menos que você more bem no sul e que realmente seja possível esperar. Mas nem assim eu indico.

Ter um bom casaco melhora a qualidade de vida porque a gente acha menos difícil sair de casa (o que vamos comentar a seguir), e quando você chega nos lugares, não está no desespero porque o seu corpo está literalmente congelando.

Em resumo: faça sua pesquisa e compre um bom casaco que vá durar.

Aqui não tem dessas de trocar de roupa de frio todo dia. A maioria dos franceses que eu conheço tem um ou dois casacos e usa o mesmo o inverno todo, para mandar lavar quando acabar o frio. E ponto, sem querer combinar cor da bota com o casaco.

Outra dica: se estiver num lugar que chove, compre também uma boa capa de chuva. Em francês tem gente que chama de k-way, ciré e outros de vareuse, sendo que as duas últimas são bem associadas às capas de chuva que as crianças usam.

Tem uma despesa que muita gente não espera mas que pode doer muito no bolso no final do inverno. O aquecimento pode sair muito caro dependendo de quanto tempo e da temperatura que você usar.

Como a conta de eletricidade não é calculada mensalmente como no Brasil, no final do inverno a conta pode ser bem salgada. No meu primeiro ano, eu não sabia disso e vivia numa temperatura completamente tropical dentro de casa, achando que estava tudo lindo. Quando veio a conta de 400 euros para dividir com os meus colocs eu fiquei em choque (e quebrado, no caso).

Uma informação interessante a saber é que aqui na França, o preço que a gente paga é uma estimativa baseada no consumo calculado, e não no valor real. Isso vai mudar até 2021, mas hoje ainda a maior parte das casas tem a conta mensal que é uma previsão, sendo que o valor real é calculado 2 vezes ao ano, e se você consumiu mais que a previsão paga a diferença, se consumiu menos a empresa te devolve o valor na conta-corrente.

Eu conheço poucas pessoas que a segunda possibilidade aconteceu no inverno, então cuidado para não ter uma surpresa na conta de abril.

Cansaço e marasmo

Eu sempre sinto que quanto menos eu vejo o sol, mais difícil é de me motivar para fazer coisas diferentes e até mesmo para manter o foco nos objetivos que eram tão fáceis no verão.

Obviamente tem um fator social e psiclógico, mas até mesmo num nível hormonal, a falta de sol modifica como o nosso corpo vai agir, e, se não tomamos cuidado com os níveis de vitamina e com a saúde em geral, podemos ficar doentes não apenas fisicamente, mas o psicológico vai ficar abalado também.

Para mim, especialmente C, D e B12 fazem uma diferença incrível no meu humor e nível de cansaço e sonolência. É super coisa de vó, mas eu super aposto nas sopas nesse período. Além de ser fácil de fazer, dá para colocar vários legumes e verduras que vão ajudar a equilibrar essas vitaminas.

 

A parte do esporte é super importante e muito difícil para mim. Ano passado eu estava relutante com isso, e comecei devagar fazendo yoga com vídeos do youtube, até me sentir com confiança (e energia) para me inscrever numa academia, onde dá para correr tranquilo no frio.

Saudades e solidão

A falta da família também começa a pesar mais nesse momento, afinal passamos nosso tempo mais sozinhos e a família nem sempre consegue acompanhar a rotina no skype ou no telefone.

Eu lembro muito que as primeiras vezes que fiquei com muitas saudades eram fins de semana quando eu passava horas no meu quarto pensando na vida. De repente eu estava lendo e uma cena nada a ver me dava o maior aperto no coração.

Contra isso não tenho lá muita solução além do tempo. Vai ficar mais fácil? Talvez não. As pessoas vão conseguir mais tempo para falar com você? Provavelmente não. Então é importante já estar ciente e começar a diminuir a expectativa, o que tornará de cada encontro um motivo de comemorar.

Também é muito importante não deixar a vida social parar de vez. Por mais que seja super legal aproveitar esse clima friozinho para maratonar no netflix, fazer isso pelo 3 dia seguido ou então pelo 4o fim de semana consecutivo é uma receita para você ficar na bad.

Tem muita gente que fala que na França só tem dois períodos para se fazer amigos, e são no verão e quando o inverno acaba. Eu discordo e acho que sempre vale o esforço de sair de casa, nem que seja para ir até a livraria para ver gente e sentir parte de algo maior (no caso a sociedade mesmo, se é o que está tendo).

Se você tiver a sorte de já ter um grupo de amigos, vai fundo e não deixa um fim de semana passar sem fazer uma notie de jogos, noite de queijos, noite de vinhos, tarde no parque (mesmo no frio) e assim por diante. Essa troca, e a presença física fazem maravilhas em termos psicológicos e até mesmo nos tais hormônios.

E você, como você espera que será o seu primeiro inverno, ou então como foi e que dicas você tem para ajudar os leitores que passarem por aqui? Manda um oi lá no Twitter para eu saber se alguma coisa aqui ajudou a não sofrer tanto!

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