3 verdades sobre a língua francesa

Fala galera!

A língua francesa não é lá muito fácil de aprender, mas tem alguns conceitos básicos que ajudam muito a construir o aprendizado do idioma com mais clareza e que ajudam a ter uma saída quando falta aquela palavra específica.

Apesar de hoje eu já quase não ter mais problemas no dia a dia e conhecer algumas referências que me ajudam a traçar paralelos, quando começamos a aprender o idioma é difícil ligar os pontos e perceber que tinha um elefante atrás daquela árvore.

O objetivo do post de hoje é falar um pouco de alguns desses elefantes e ligar uns primeiros pontos da imagem. Eu escolhi 3 grandes princípios que eu acho que ajudam demais a entender o funcionamento da língua e, por consequência, dos próprios franceses. Os dois primeiros também me ajudam bastante a decidir como me expressar quando tenho uma dúvida.

A idéia não é ir no detalhe, mas trazer os conceitos para atiçar a curiosidade e ajudar a começar a buscar as respostas e aprofundar essas questões.

Elefante #1 – O francês é uma mistura de inglês e latim

Na minha primeira aula de francês, minha professora disse: se você sabe falar português e inglês, jamais terá problemas de vocabulário na França.

No começo a gente não acredita muito e acha que só vale para aquelas poucas palavras que conhece. Com o tempo, começamos a ter uma melhor noção da sonoridade do francês, e quando temos a chance de ver franceses falando inglês e o inverso, vira uma chavinha que diz que a informação é real e oficial.

A prova? A Wikipédia em inglês e o blog Grammarphobia tem dados:

Pelo menos 28%, mas provavelmente algo em torno de 40% do vocabulário inglês vem do Francês. Esse dado é de um estudo analítico de vocabulário disponível, e não de uso.

Em termos de uso, acontece um desequilíbrio muito grande – assim como no Brasil, o uso de vocabulário é pífio se comparado ao léxico disponível, e 70% dos textos em inglês é de origem anglo-saxônica.

Tudo isso para dizer que, apesar de uma base anglo-saxônica, uma boa parte do vocabulário “difícil” do inglês tem sua base no francês. E, como, em línguas, vale a volta, seu vocabulário em inglês poderá te ajudar a comunicar na França.

 

Quer exemplos?

Não apenas rendezvous, croissant, justice, art que são copiadas sem mudar uma letra sequer, mas várias outras, como , music, beef, hurricane, dungeon, parachute, dandelion, quase toda a terminologia medieval, nomes de vários vegetais e muitos outros;

A outra língua que nos ajuda muito é o próprio português. Para ser mais preciso, a origem latina da nossa língua, que ajuda a entender a estrutura e os “blocos básicos”, que são muito parecidos.

Mas é importante saber que a parte latina do francês tem uma conexão maior com o italiano do que com o português. Então se a palavra tiver uma raiz claramente latina, ou então for parecida em português ou espanhol, pode ser um bom chute para a versão em francês.

Quer exemplos?

É fácil, qualquer palavra mais longa vale: comunicação que vira communication, método que vira méthode, ação que vira action, esperança que em francês é espérance, mediador que vira médiateur… muda-se o sotaque e adapta-se os sufixos, mas a raiz é mantida.

Em resumo: se não souber uma palavra, busque a versão em inglês ou então em espanhol para tentar fazer o paralelo. Ou então tente como um bom chute inicial.

Elefante #2 – O poder da precisão

Algo que me surpreendeu muito na França é como a língua é específica e a precisão vocabular muito valorizada. Em português, nós gostamos muito de sinônimos e expansão lexical é quase regra em redação, para trazer fluidez aos textos. Nós também gostamos muito de brincar com a estrutura das frases, fazendo muitas vezes estripolias que Camões bateria palma.

Já na França, o idioma é muito menos permissivo e existem regras que são quase invioláveis, e isso além de valorizado pode ser um problema na hora de comunicar se alguma delas não for respeitada.

A estrutura SUJEITO + VERBO + COMPLEMENTO não pode ser modificada. Começar uma frase com um verbo só é possível em estruturas específicas. Eles também abominam frases longas – o nosso costume de usar a subordinação para transmitir idéias é incompreensível para eles. Fora textos literários, que aceitam mais liberdade, no dia a dia as frases são curtas, precisas e auto-contidas.

Outro ponto de precisão é o próprio vocabulário. Várias palavras que em português usamos indistintamente para eles têm significados diferentes e que não podem ser substituídos. E não estou falando apenas de conotação, de significado mesmo.

Exemplos

  1. Employé et fonctionnaire tem sentidos completamente diferentes em francês (a segunda só se aplica a funcionários públicos)

  2. Préfecture, mairie, hotel-de-ville, podem todos ser traduzidos como prefeitura, mas em francês cada um tem seu papel e distinções bem claras para um francês

  3. Clocher e beffroi em português são traduzidos como campanário, mas em francês o primeiro é mais associado a sinos de igreja enquanto o segundo é ligado a sinos de guarda – onde antigamente os guardas da cidade observavam e avisavam todos em caso de invasão, e onde ao longo do tempo foram instalados os famosos relógios da cidade.

Antes de eu entender esse princípio chave, eu achava só que os franceses eram chatos e ficavam botar a gente para baixo quando a gente demonstrava ter um vocabulário melhor, mas muitas vezes é só para ajudar mesmo e nos mostrar que apesar de termos uma palavra parecida em nossa língua o USO não é o mesmo.

Elefante #3 – O humor francês é baseado em repetição, repetição, repetição.

Apesar da frase acima não ser totalmente verdade, ela é pelo menos um bom guia inicial. Além da repetição, que os franceses dominam e insistem em usar, boa parte do humor é baseada em jogos de sons e referências.

Assim como no Brasil nós conseguimos transformar qualquer frase em algo inapropriado, alguns franceses conseguem transformar qualquer palavra solta em trocadilho ruim. No trabalho eu tenho alguns colegas especialistas na arte, então é impossível seguir a conversa se você não estiver atento às cacofonias e ganchos que eles fazem.

Por ter uma língua muito rígida em estrutura, o uso de humor mais ligado ao som é utilizado. Não é lá muito fácil de explicar em português pois não faria o menor sentido, mas utilizar as últimas sílabas da frase que alguém falou no meio de uma frase com outro significado pode trazer altos risos.

Um exemplo que é bastante clássico para os franceses são as contrepetries, onde se trocam os sons de uma frase aparentemente inocente para obter uma frase engraçada, em geral com uma conotação sexual. Deixo a busca como exercício ao leitor, mas uma bem típica é mandar no final de uma mensagem ou e-mail “je te laisse le choix dans la date”.

As referências por sua vez são mais difíceis de adquirir, pois dependem muito do grupo em que se está incluso. Não é raro franceses conheceram partes visivelmente longas do script de alguns filmes clássicos – o número de vezes que vi alguém repetindo ao pé da letra alguma frase de Astérix e Obélix Missão Cleópatra é surpreendente.

Mesmo sendo mais complicado de adquirir, esse reflexo das referências pode ser potencializado com uma boa escolha de filmes e livros – geralmente a melhor idéia é pedir para pessoas do seu círculo social, assim você terá as mesmas referências que aquele grupo, o que faz maravilhas na sua compreensão do dia a dia.

Sinceramente conhecer esse tipo de coisa traz muita confiança, e entender as piadas que as pessoas fazem te torna imediatamente mais próximo, podendo fazer até com que as pessoas relevem que você diz “equinócio” com um ou dois sons meio estranhos.

E você, quais os elefantes linguísticos que antes você não via e que agora estão em todos os lugares na língua francesa?

Será que algum deles também funciona para a língua portuguesa e a gente só não notou?

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