Vida de Expatriado – Como criar conexões sendo autêntico

Essa semana o post é um pouco diferente do que costumo fazer. Comecei a ouvir essa semana um novo podcast, da Paula Pant e o episódio sobre como ser autêntico me fez pensar em várias situações que vivo e tenho certeza que vou continuar vivendo como expatriado.

No podcast, a Paula fala sobre algumas situações em que ela fica bastante dividida entre a sua identidade interna de “sou apenas uma garota normal com meus gostos, interesses e características únicas” e a interpretação externa dela como “a garota estrangeira”. Enquanto expatriados, ou até mesmo como estudantes de intercâmbio, passamos por diversas situações em que essa batalha silenciosa acontece em nossa cabeça.

Eu senti uma conexão muito grande com o conteúdo, pois apesar de hoje eu me sentir cada vez menos estrangeiro no país – tenho um emprego, atividades, amigos, faço minha feira e sábado e conheço os feirantes, etc… – muitas vezes a visão de uma nova pessoa que conheço é: “sou um estrangeiro”. Uma noção que me prendeu muito no podcast é que as pessoas te enxergam por esse filtro antes de todo o resto – sua personalidade, seus interesses, vontades e características ficam todas em segundo plano.

Enquanto eu era estudante, isso não era lá muito um problema. Naquele momento, o rótulo não me tinha lá tanta importância pois ele também me servia como guia para agir, pensar e me ajudar a me exprimir. No entanto, com o tempo a gente cansa de repetir as mesmas respostas às mesmas perguntas (Porquê a França? É muito diferente do Brasil? Você pretende ficar aqui para sempre?) e o rótulo começa a fazer cada vez menos sentido.

Como todo ser humano, nosso desejo é ser visto como indivíduo, com direito à particularidades, desejos, sonhos e interpretações do mundo que não precisam ser somente ligadas à realidade na qual nascemos, ou até onde fomos criados e estudamos. Eu pessoalmente, quero não ser visto como apenas o brasileiro, mas quero ser o brasileiro que é chefe escoteiro, que adora experimentar novas cervejas, e que tem planos e projetos mirabolantes colados na janela do quarto.

A solução da Paula para isso é abraçar essa autenticidade e falar sobre ela, ser um estandarte das próprias escolhas. Antes de pensar o que você deve fazer por estar em um país, ou por ser de outro, a chave é pensar no que você deseja como indivíduo deseja e ser fiel a isso. Enquanto eu escutava várias situações me passaram pela cabeça e eu percebi que em várias delas eu mudei bastante de quando fiz o intercâmbio para cá.

Eu também percebi que são algumas dessas marcas de autenticidade que fazem com que as pessoas se conectem comigo e não apenas com um estereótipo.

Na minha experiência pessoal, eu tenho tentado já há alguns anos alinhar cada vez mais minha vida aos meus objetivos, e fazer as escolhas que mais se alinham com minha realidade pessoal. Embora eu obviamente não possa ser 100% fiel a tudo o que desejo – é um objetivo um pouco platônico, eu resolvi listar algumas das minhas escolhas até de comunicação que me ajudam a ser mais autêntico e a criar essa individualidade.

Me apresentar falando sobre meus projetos e gostos pessoais

Após muito tempo me apresentando falando de onde eu vim e minha faculdade ou “estou em intercâmbio”, hoje eu me apresento falando com o que trabalho, e o que eu faço no meu tempo livre – hobbies, trabalho voluntário, que música eu escuto ou como gosto de sair.

Enquanto eu ouvia o episódio, eu até pensei que, para algumas pessoas, mesmo a etapa de falar o que trabalho pode ser uma má escolha se o trabalho não for uma peça essencial da sua missão ou se sua identidade estiver menos apoiada que isso. Hoje não é o meu caso, então eu continuo falando disso.

O assunto “de onde eu venho” tende a ficar em segundo plano quando eu imponho uma conversa sobre o que estou lendo ao me apresentar. As pessoas até vão te perguntar, mas antes disso elas já vão ter o filtro de quem eu sou antes do “filtro do estrangeiro”

Usar o pronome TU sempre que possível

Os franceses tem uma cultura que ainda valoriza muito formalidades em algumas situações, e que promove um distanciamento muito grande na forma de se expressar. No Brasil por outro lado temos uma comunicação muito próxima, e até no modo de se apresentar e cumprimentar somos bem mais físicos que os franceses.

Apesar de eu não poder usar Tu sempre – em contextos muito formais como com um prefeito por exemplo todos usam Vous – eu escolhi sempre que possível usar o Tutoiement. Na empresa em que trabalho, apesar da política oficial ser “Tutoiement genéral” no papel, algumas pessoas usam Vous com pessoas mais velhas ou com diretores. Eu perguntei e, me disseram que a política era usar Tu mas “eles preferiam não fazer porquê não parecia apropriado”.

Eu pessoalmente decidi usar o Tu em todas as ocasiões no trabalho pois é um modo de me exprimir que me deixa mais a vontade e me faz sentir próximo das pessoas, então eu uso.

A Bise

Eu, pessoalmente, após tentar abraçar para cumprimentar algumas pessoas, percebi que os franceses se sentem muito mal com isso. Por outro lado, amigos próximos (ou nem tanto) se cumprimentam com o beijinho no rosto, que aqui chama “bise”.

No Brasil isso não é um hábito entre homens, então para mim no começo foi bem estranho. Com o passar do tempo, continuava estranho mas eu fazia com as pessoas mais próximas.

Hoje minha política pessoal é fazer se eu me sentir à vontade com a pessoa se quiser e, caso contrário, estender logo a mão para apertar, sem neuras. Mesmo que a pessoa viesse fazer a bise ela logo entende que não vai rolar e pronto.

Quando me perguntam sobre o Brasil, não dar pontos de vista fechados

Para essa aqui prefiro dar alguns exemplos concretos:

“O Brasil é muito diferente daqui?” Depende de onde você for no Brasil e do que você estiver avaliando.

“O Rio é muito perigoso?” Depende de onde você andar e como estiver. Tem áreas que vão ser mais seguras que a França e outras não.

“Você acha melhor aqui ou lá?” Depende de como você vive, quanto dinheiro você tem e qual o seu objetivo. Para mim hoje é melhor morar na França pois eu posso trabalhar com o que eu quero com uma remuneração interessante e uma boa qualidade de vida. Mas eu por exemplo acharia muito pior morar em Paris com um emprego que não gosto do que morar em São Paulo em um emprego que gosto.

“Todo mundo lá fala inglês/francês tão bem quanto você? Porquê na França somos péssimos com línguas.” Todo mundo que teve as mesmas oportunidades, o mesmo status social e privilégio que eu provavelmente teve a possibilidade, sim, mas necessariamente sabe. Agora a grande maioria da população não tem essa mesma bagagem então em geral não. E o mesmo vale na França onde uma parte ínfima da população que faz intercâmbios muito jovem em países anglofonos tem um nível de inglês muito melhor que a média.

Eu conheço muitos brasileiros que vão direto no “ah, é muito melhor no Brasil porquê eu posso ter meu carro, empregada em casa e bancar muito mais coisas” ou então “nossa o Brasil é muito inseguro, não dá pra andar a pé ou de ônibus sem ser assaltado” sem fazer a conexão de que ele está esquecendo completamente de enxergar sua situação inicial e a posição econômica e social em que ele estava.

Para mim, é super importante fazer os recortes necessários no lugar de dar uma resposta definitiva em nome de um país tão grande e com realidades tão diferentes.

Tomar tempo para entender e conhecer referências

Algo que eu posso completamente entender, mas que decidi não fazer, é simplesmente ficar alienado às referências culturais. Já conheci várias pessoas que não se interessam lá muito por entender de onde veio uma frase ou quem é o cantor que está tocando e que todo mundo está indo a loucura naquela festa. E isso o tempo todo para tudo. “Vitor Hugo? Nem sei quem é”, “Luís XVI? Quem se importa”.

Eu pessoalmente gosto bastante de pesquisar, ler e entender um mínimo. Para ter um mínimo de conversa, fui ler alguns clássicos da literatura, livros de história, buscar música de várias épocas…

Em especial, como eu crio conexões com pessoas muito facilmente com o assunto música, eu sou do tipo que não apenas vai descobrir que música é aquela, mas que vai passar horas ouvindo até conhecer pelo menos o refrão e ter mais referências do artista. Por outro lado eu deixo totalmente de lado as referências de filmes, que é algo que não me agrada.

Usar palavras difíceis sem medo

Uma das coisas que me deixava numa posição muito vulnerável quando comecei a estagiar na França foi não ter a mesma facilidade de comunicação escrita e “adulta” que eu tinha no Brasil. Em português eu não apenas tinha uma boa comunicação, mas eu contava com um vocabulário extenso que me permitia criar textos rebuscados e, sinceramente, eu gosto de falar difícil. É uma característica minha gostar de usar palavras pouco frequentes (e completar as frases das pessoas quando elas procuram essas palavras e não acham, mas isso é um defeito e não algo bom).

Eu tinha um problema de ego bem grande por não conseguir ter o mesmo nível de expressão em francês. A solução foi continuar treinando o idioma e lendo textos cada vez mais rebuscados, literários e clássicos. Afinal, no Brasil eu fiz isso no ensino médio e foi nesse momento que meu vocabulário mais expandiu, logo repetir a estratégia me parecia fazer sentido.

Ainda não estou no nível que gostaria, mas com o tempo eu consigo cada vez mais ser espontâneo com um vocabulário mais rico e complexo.

Não me martirizar por usar palavras de outro idioma

Quando estamos aprendendo uma língua e usamos sem querer uma palavra que “não existe”, uma vergonha parece que toma conta da gente, e às vezes fica até chato quando a pessoa realmente não entende.

Por muito tempo sofri com isso mas, recentemente, ao ouvir um Ted Talk sobre bilinguismo no qual a palestrante fala sobre como boa parte das conversas em inglês não acontece na presença de anglófonos, minha cabeça mudou muito.

Eu, felizmente, já tenho um nível de pronúncia e até de escrita que me permite mais liberdade com as palavras que uso, então o fato de uma palavra ou outra não estar perfeitamente colocado ou, até mesmo não existir, não atrapalha a comunicação.

Desde então eu comecei a aceitar melhor isso e até parar de me desculpar quando isso acontece.

E você? Como você alinha sua comunicação e sua postura e até sua vida com quem você realmente é? E em que situações você se sentiu filtrado por apenas uma característica no lugar de visto como pessoa?

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